“Hoje
eu preferia ser um sósia de mim mesmo, preferia ser um homônimo,
não ser eu. Mas, enfim, fiz um erro tolo. “
O
bem-humorado mea-culpa do experiente jornalista Mário Sérgio Conti,
tenta colocar um ponto final na maior bola fora midiática desta
Copa, pelo menos até agora.

Colunista
da Folha e de O Globo, Conti, que também apresenta o programa “Diálogos”, na GloboNews,
escreveu um artigo no qual relatava uma “exclusiva” com Luís
Felipe Scolari, técnico da Seleção Brasileira de Futebol, durante
um voo da Ponte Aérea entre Rio e São Paulo no qual também estaria
Neymar.
O
problema é que um “pequeno” detalhe estragou o que seria uma
feliz oportunidade jornalística: o Felipão não era o Felipão,
era, sim, um sósia. Seu nome, Wladimir Palomo. (O Neymar, presente,
também era um sósia).
Ao
constatarem a “Barriga” (ou seria melhor dizer a “canelada”?),
Globo e Folha trataram de tirar o texto do ar. Só que, graças a
alguns macetes da Internet, ontem, ainda consegui resgatá-lo na
íntegra, abaixo:
“SÃO PAULO - Neymar e Luiz Felipe Scolari foram os últimos passageiros a embarcar no avião, às 17h30 de ontem. Como o voo da ponte-aérea, do Rio para São Paulo, estava lotado, ambos se espremeram em poltronas entre passageiros, Felipão na 25E e Neymar na fileira da frente.
“SÃO PAULO - Neymar e Luiz Felipe Scolari foram os últimos passageiros a embarcar no avião, às 17h30 de ontem. Como o voo da ponte-aérea, do Rio para São Paulo, estava lotado, ambos se espremeram em poltronas entre passageiros, Felipão na 25E e Neymar na fileira da frente.
-
Vê se dorme, moleque - disse o técnico ao jogador. Neymar desligou
o celular, mas não dormiu, apesar de apenas um passageiro ter-lhe
pedido um selfie durante o voo. Tampouco Felipão pregou o olho. Um
tanto apreensivo com o céu carregado, ele respondeu de bom grado
tudo que lhe foi perguntado.
-
“Acho que, até agora, os melhores times foram a Holanda e a
Alemanha - disse.
-
Eles vão dar trabalho. A Itália também. Ela sempre chega às
semifinais. É como o Brasil: tem tradição, empenho, torcida.
O
zero a zero com o México não o abalou:
-
Pode ter sido até positivo, na medida em que jogou um pouco de água
fria no oba-oba, na ideia de que é fácil ganhar uma Copa.
Num
campeonato de nível tão alto, ele acha imprevisível fazer
prognósticos.
-
Quem diria que a Espanha sairia da Copa logo de cara? - indagou.
O
mesmo raciocínio ele aplica à seleção sob a sua responsabilidade.
-
O Oscar fez uma excelente partida na estreia, mas não foi bem no
segundo jogo - disse, mastigando um salgado de gosto insosso.
-
O Neymar foi bem, mas não teve a genialidade da partida anterior.
São coisas que acontecem. E quem esperaria que o goleiro mexicano
defendesse todas? - indagou.
Felipão
concordou com o raciocínio que Neymar parece mais centrado, não se
joga tanto no chão ou faz demasiado teatro:
-
É verdade, ele está mais objetivo. Mas pode melhorar ainda mais.
Não dá para apressar muito esse processo: ele é muito moço, tem
que aprender as coisas na prática.
ELOGIOS
A NEYMAR
Mas
não tem dúvidas:
-
Se tivéssemos três como ele, a Copa seria uma tranquilidade.
O
avião deu solavancos e o técnico comentou:
-
Isso sim é que é um especialista, repare como o piloto conduz o
avião com mão firme, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.
O
que seria mais difícil: pilotar um avião ou a seleção nacional?
-
Não tem comparação, avião é muito mais difícil. O piloto lida
com vidas humanas, é responsável por elas. Se a seleção perder,
será muito triste para o Brasil, para os jogadores, a minha família
e eu. Mas ninguém corre risco de morte.
Felipão
se disse satisfeito com o ambiente geral da Copa. Não esperava que
tantos mexicanos e chilenos viessem, nem que as torcidas se
confraternizassem.
-
Até os argentinos estão se dando bem com os brasileiros. Pelo menos
até agora.
TÉCNICO
APROVA AEROPORTOS
Felipão
também disse que os estádios são bons e a organização dos jogos
funciona.
-
E te digo: tive dúvidas, mas os aeroportos onde estive até agora
estão uma maravilha.
Contou
que ninguém do governo o procurou, em momento algum. E ouviu com
agrado o relato de meu encontro recente com um ministro, seu fã
atilado.
-
Pelo que ouço dizer, o governo está torcendo pela seleção, e a
oposição nem tanto. Acho uma bobagem misturar futebol e política.
Eu mantenho essa separação custe o que custar, não dou uma palavra
sobre política.
Os
xingamentos a Dilma no jogo de abertura, portanto, não lhe dizem
respeito.
Perguntado
se lia comentários de especialistas nos jornais, ou ouvia o que
diziam na televisão, Scolari sorriu:
-
Até papagaio fala.
Ao
ouvir os nomes de alguns, ex-jogadores e ex-técnicos, repetiu,
divertido:
-
Papagaio fala!
Felipão
terminou de tomar a caixinha de suco de laranja e se se explicou
melhor:
-
Os comentários são necessariamente frios, distantes. A experiência
de jogar no Maracanã lotado, de cobrar um pênalti, de ouvir vaias,
são coisas que mexem com o jogador, com o indivíduo. Não é
questão de aplicar uma receita.
Para
o treinador, as variáveis envolvidas numa partida são inúmeras,
não é possível reduzí-las ou quantificá-las.
Deu
como exemplo a seleção da Alemanha:
-
Ela está na Bahia, no sol, entre mulatas lindas. Claro que isso os
influencia.
Felipão
riu de novo:
-
Desconfio que alguns deles nem voltarão para a Alemanha.
ZAGA,
O PRINCIPAL PROBLEMA
Se
não acompanha os comentaristas da imprensa, ele está ciente de
dificuldades táticas e de entrosamento na seleção.
-
O principal problema é a zaga. Ela cai para o lado, quando deveria
ir em frente, buscar o jogo lá na frente.
O
que mais o irritou até agora foram os boatos, divulgados pela
imprensa europeia, que o Brasil já ganhou a Copa, já que a Fifa
teria orientado juízes a facilitarem a vida da seleção.
-
Mais que um absurdo, é um desrespeito. Você imagina comprar a
Itália, a Alemanha? Isso não existe.
O
avião sobrevoava São Paulo, coberta por nuvens.
-
É como descer a serra de Santos com um nevoeiro fechado, sem
enxergar nada. Esse comandante sabe tudo.
Neymar
e o técnico tinham participado da gravação do programa “Zorra
Total”, no Projac, o estúdio da Globo em Jacarepaguá.
-
Não gosto de passar muito tempo longe de São Paulo: veja que cidade
interessante - apontou o treinador.
Felipão
estava curioso em saber como seu filho se saíra numa prova naquele
dia. Ele estuda Economia nas Faculdades São Judas Tadeu, e pegara
uma recuperação.
-
Mas o garoto vai bem, é estudioso.
Perguntei
se toparia dar uma entrevista ao programa “Diálogos”, da
GloboNews.
-
Claro, vamos lá. Só que ando meio ocupado... - disse, rindo.
Pegou
sua carteira, tirou um cartão de visitas e me entregou, afirmando:
-
Mas isso pode te ajudar por enquanto.
O
cartão de visitas dizia:
“Vladimir
Palomo – Sósia de Felipão – Eventos”.
Depois
das gargalhadas, apertou a mão e disse:
-
Deus te proteja.”
O mais curioso de
tudo é, justamente, o conteúdo das últimas linhas da entrevista,
quando o sósia se identifica. Nem assim a ficha do jornalista cai.
Numa entrevista ao jornal O Globo, ele tentou explicar algo tão
inexplicável:
“Conti afirma
que achou que Felipão havia feito uma brincadeira depois de se
recusar a participar do seu programa na GloboNews dizendo estar muito
ocupado durante a Copa.
- Achei que era
o Scolari, tive certeza de que era ele. Eu estava lá esperando o
voo, ele entrou, sentou-se ao meu lado. Eu fui perguntando e o cara
respondendo.”
O jornalista disse que logo que alguém o alertou de que Felipão se
encontrava em Fortaleza e que, portanto, não poderia ter dado aquela
entrevista, começou a “apagar o incêndio”. E, sobre isso, mais
uma curiosidade, as duas notas de desculpas dos dois jornais são
exatamente iguais.
Mário Sérgio Conti afirmou que nunca tinha estado com Scolari e que
sequer já havia visto uma entrevista dele pela TV. Algo realmente
impressionante para quem vive no Brasil e para quem conseguiu
desenvolver uma entrevista com tantos detalhes sobre a situação de
nossa seleção no Mundial.
Tentando
manter o bom humor e minimizando o fato, declarou:
“Realmente foi um erro tolo. Agi de boa fé. Percebi o erro e
corrigimos, deu para corrigir. Não prejudiquei ninguém, a não ser
eu mesmo... Perdão pela confusão. Felizmente, ela não prejudica
ninguém. Não afetará a Bolsa, a Copa ou as eleições.”
Com
toda certeza a canelada jornalística contundiu apenas seu próprio
autor. Não sei, nem mesmo, se ele chegou a levar um cartão amarelo
pelo lance. Mas, com toda certeza, se o jornalista responsável pelo
texto fosse menos cotado; se não fosse um dos “craques” do time,
fatalmente teria recebido um cartão vermelho, sem direito a qualquer
tipo de apelação.
Alguém
duvida?

Conti mostra arrogância, sim, sobretudo ao declarar em entrevista ao Zero Hora, que "Sequer vi entrevistas dele na televisão; só nas partidas, ao lado do campo. Achei todas as respostas dele sensatas." Boa reflexão, Casé.
ResponderExcluirNão sabia dessa, Rafa. Hilária.
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