segunda-feira, 9 de abril de 2012

Uma história em preto e branco

O título deste post nada tem de original, é o mesmo que uso em minha coluna no site da Rádio Botafogo (www.radiobotafogo.com.br), mas se encaixa perfeitamente com o assunto do qual pretendo falar: o filme Heleno, de José Henrique Fonseca.


Assisti ao longa na última sexta-feira, mas preferi esperar alguns dias para escrever minhas impressões sobre ele.  Queria ter uma visão mais clara, menos apaixonada. Conversei com algumas pessoas que também o assistiram e ouvi suas opiniões. Li críticos de cinema e opiniões de jornalistas esportivos. E cheguei à conclusão de que Heleno é um filme que pode ser visto de formas diversas.
O filme é um grande drama. O próprio diretor assume que o objetivo era retratar a derrocada do jogador. E, realmente,  o fim da carreira e da vida de Heleno de Freitas (1920-1959) não poderia ser mais dramático: exilado de seu clube de coração, impossibilitado de jogar futebol, sozinho e em processo de demência, provocado pela sífilis, que enfim o derrotou. Aqueda de um mito é certeza de um roteiro que prenda o interesse para qualquer espectador, mesmo que este seja um jogador de futebol e a pessoa nunca tenha sido apresentada a uma bola.
A figura de Heleno fascinou Rodrigo Santoro, que se empenhou para que o projeto fosse realizado. Nunca vi Heleno em campo (embora adorasse ter visto), apenas em fotos, mas saí do cinema com a impressão de ter presenciado um processo de encarnação. Não há mais como, a partir daquele dia, não associar a figura de Heleno com Rodrigo Santoro.



Tenho amigas que veriam o filme só pelas cenas em que aparece em plena forma atlética, sedutor e charmoso como seu personagem. Elas, no entanto, também teriam que conviver com o farrapo humano em que o ator se transformou para viver o jogador em seus momentos finais, em um sanatório de Barbacena. É nesse trecho do filme que Rodrigo mostra que se tornou um grande ator e não apenas pelo sacrifício que fez ao perder 12 quilos para interpretar Heleno doente, mas por seu olhar perdido nessa parte do filme, um olhar capaz de despertar a comoção do mais insensível dos presentes na sala escura. Concordo com o colunista do Globo, Fernando Calazans: a melhor cena do filme é a da conversa entre os internos do sanatório em que Heleno tenta fazer com que um deles fume. A naturalidade da conversa é tocante.
Já quem foi ao cinema em busca de um filme sobre futebol se decepcionou. Heleno passa longe disso. Muito pouco mostra da riquíssima carreira do homem que encantou os torcedores alvinegros e tanta inveja despertou nos torcedores rivais, ao ponto de o chamarem de Gilda, personagem intempestiva vivida por Rita Hayworth no cinema.
Creio que só quem conhecia um pouco da trajetória de Heleno pode compreender certas passagens do filme, como a de seu primeiro e último jogo no Maracanã, pelo América, quando foi expulso após uma entrada violenta em um adversário, ainda aos 34 minutos do primeiro tempo.
Aqueles que o viram atuar o classificam como um fora de série e que, em sua posição, só era superado por Zizinho. Mas, na época em que atuou pelo Botafogo, Heleno era a própria Estrela Solitária que carregava no peito. Havia outros craques como Otávio e Geninho, mas nenhum capaz de se colocar no mesmo patamar do mineiro de São João Nepomuceno que descobriu, no Rio, sua verdadeira terra natal.



As glórias de sua carreira foram tantas que Heleno, apesar de não ter conquistado um título sequer, se tornou ídolo. Pensem nisso.
Pouquíssimos são os jogadores a quem se possa fazer tamanho elogio.
Sim, elogio, meus caros. Em um tempo em que "produtividade" passou a ser mérito maior do que "qualidade"; em um tempo em que goleadas de 1x0 são exaltadas por treinadores; em um tempo em que assessores de marketing praticamente entram em campo, um ídolo sem um título sequer jamais surgirá.
Imaginem, pois, o que esse homem fez em campo. E se quiserem imaginar com maior riqueza de detalhes, sugiro da leitura de livros de dois companheiros nessa prazerosa tarefa de narrar a rica história alvinegra: Os dez mais do Botafogo, de Paulo Marcelo Sampaio, e Nunca houve um homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves, que serviu de base para o roteiro do filme.

Nenhum comentário:

Postar um comentário