terça-feira, 30 de agosto de 2016

OLIMPITACOS VI


Em uma de suas músicas Chico Buarque diz: “A dor da gente não sai no jornal”.
Em se tratando de atletas olímpicos, o verso não se aplica (ou quase nunca).
A dor é estampada em cores, em fotos de alta definição, assim como circula o mundo pela Internet ou é transmitida ao vivo pela TV.
Depois de um dia de muitas derrotas como o de ontem, o fato ainda fica mais visível.
Mas o grau da decepção de ver o sonho do alto do pódio se desfazer pode variar de acordo com cada atleta. O histórico de cada um, as reais chances naquela modalidade e o momento pelo qual estavam passando são fatores que gravam ou atenuam a dor olímpica.
Vejamos o caso do handebol feminino. Um esporte esquecido no dia-a-dia esportivo brasileiro e que no máximo traz ao público em geral a lembrança das aulas de Educação Física dos tempos do colégio. Modalidade que ressurgiu após o brilho inesperado da conquista de dois PANs , do Campeonato Mundial, na Sérvia, em 2013 e da eleição de Duda, que há muitos anos atua no exterior, como melhor jogadora do mundo.
Por melhores que tenham sido algumas atuações do time, inclusive derrotando a poderosa Noruega na estreia, as chances reais de medalhas estavam mais posicionadas na prateleira da esperança do que na da realidade.
O mesmo não ocorre com o futebol feminino.
Medalha de prata nas duas olimpíadas anteriores, nossa seleção vislumbrava, enfim, o ouro, principalmente após a eliminação inesperada dos EUA. O time comandado pela carismática e talentosa Marta soube fazer a torcida adotá-lo pro sua dedicação, entrega e gols, aspectos em falta quando se fala de futebol masculino.
A derrota nos pênaltis para a retrancada Suécia, que já havia sido goleada pelas brasileiras, doeu fundo, imagino, em jogadoras como Formiga, Cristiane e, principalmente Marta, que viram a última chance de uma medalha dourada olímpica pendurada em seus pescoços desaparecer. Mas, por maior que seja essa dor, elas, lá no fundo, sabem que se levarmos em conta a estrutura próxima a zero do futebol feminino em nosso país, fizeram muito mais do que se podia imaginar em todos esses anos.
Ser ídolo em um país assim faz de Marta, alagoana de Dois Riachos e sueca por profissão, um mito esportivo.


Difícil saber o que ela sentia, de joelhos, com lágrimas nos olhos, diante de um Maracanã lotado, ao fim da disputa de pênaltis que eliminou o Brasil. Provavelmente a dor do adeus olímpico.
Mas alguém se surpreenderia se aos 34 anos, em Tóquio, ela estivesse mais uma vez liderando as meninas brasileiras?
Em relação ao Vôlei Feminino de quadra, a tristeza é grande depois de uma primeira fase impecável, sem um set perdido. Mas para as meninas que conquistaram dois ouros olímpicos, a sensação de dever cumprido deve se sobrepor à dor. Já para as novatas, fica o estímulo para novas conquistas.
E, para não me alongar mais, chego ao ponto que, na verdade, me inspirou a escrever esses olimpitacos de hoje: a derrota de Larissa no Vôlei de Praia.
Por que Larissa e não a dupla Larissa/Talita? Porque Larissa transcende parcerias e afirmo isso sem subestimar qualquer de suas companheiras de quadra (Ana Richa, Juliana, Talita..).
Aos 34 anos de idade, Larissa chegou aos jogos do Rio com, nada mais, nada menos, do que 7 títulos do Circuito Mundial; 1 ouro, 2 pratas e 1 bronze em Campeonatos Mundiais; 2 ouros e um bronze em Pan-Americanos e 1 bronze olímpico.
Em Londres, ela e Juliana eram as grandes favoritas até serem derrotadas por Jennifer Kessy e April Ross, nas semifinais.
O Rio surgia como a oportunidade de coroar sua carreira e tirar da boca o gosto amargo do bronze dos Jogos passados. E, novamente, era a favorita. Pelo menos até ontem, quando ela e Talita foram derrotadas inapelavelmente pelas alemãs Laura Ludwig e Kira Walkenhorst por dois sets a zero.
Essa talvez tenha sido a derrota de ontem que mais me abateu.
Talvez a mais cruel de todas.
Mas para alguns jornais toda a trajetória da atleta não bastou para que a partida ganhasse destaque em suas páginas. No O Globo, apenas seis linhas no “pé” da matéria sobre a vitória da dupla masculina.
Na Folha de S. Paulo, retranca só no site.
No globoesporte.com, nem isso. A matéria sobre o jogo falava da aflição da esposa e da família de Larissa na arquibancada.
Se ganhar bronze mais uma vez, talvez ganhe uma matéria decente. Se não, perderá espaço para notícias “positivas”
O fato é que, hoje, a dor de Larissa, como diria Chico, não saiu no jornal.


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