
A chama da pira se apagou, mas o assunto ainda não esfriou, pelo
menos para mim.
Durante a paralimpíada do Rio estive envolvido com atletas e
competições com os quais nunca tivera contato maior. A tarefa,
quase concluída, era preparar um Caminhos da Reportagem especial
sobre os Jogos Paralímpicos. Um trabalho árduo, mas, ao mesmo,
tempo, muito gratificante.
A cada programa que fazemos tenho o prazer de aprender mais. Curioso,
por ofício e por natureza, esse é um aprazível retorno que a
profissão me proporciona.
E com o Caminhos paralímpico não foi diferente.
A linha do programa segue um raciocínio que desde o início me
pareceu verdadeiro e que acabou sendo reforçado pelos entrevistados
que ouvimos: ninguém é o mesmo depois de assistir a competições
como essas. Não à toa o título de nosso programa é "Jogos
Paralímpicos: nada será como antes" (A inspiração vem da
música de Milton Nascimento e Lô Borges. Só soube que este seria o
título da nova novela da Globo, bem depois...rs).
As provas disputadas por atletas de ponta com algum tipo de
deficiência (mais ou menos severa) nos mostram que é possível
conviver com limitações. Ou melhor, viver com elas. E se você
pensar bem, quase todos nós vivemos assim. Eu, por exemplo, tenho
vista cansada. Não consigo mais ler letras miúdas sem a ajuda de um
óculos. Na prática, sou um deficiente visual. Isso sem falar de meu
joelho fraturado, que nunca mais foi, nem será o mesmo.
Durante muitos anos pessoas com deficiência ficaram escondidas por
suas famílias ou até mesmo por vontade própria. Rosinha dos
Santos, bicampeã paralímpica em Sidney 2000, ficou sete anos
reclusa por vergonha. Não queria ser vista por ter perdido uma perna
em um atropelamento, aos 18 anos de idade.
Hoje, isso está mudando. Pais de filhos com problemas congênitos,
com limitações físicas ou intelectuais, encaram o desafio de
criá-los em meio à sociedade da qual são parte integrante.
O fato de termos escolas inclusivas também é muito importante nessa
mudança.
Se uma criança que assistiu às vitórias de um Daniel Dias já terá
um novo olhar sobre pessoas que usam próteses ou não têm partes do
corpo, imagine o que significa conviver com outra criança
deficiente, entender suas limitações, criar laços afetivos e
apoiá-la.
O preconceito se enraíza quando ainda somos crianças. É nessa fase
da vida que vamos beber na fonte dos conceitos (e preconceitos) de
nossa sociedade. Porém, se essas mesmas crianças passarem a ter
outro olhar sobre as diferenças e respeitar cada ser humano, podemos
começar a mudar algo que anda tão errado. E aqui não falo apenas
de diferenças físicas que provocam o tão comum e abominável
bullying, mas também de diferenças de raça, de gênero, de credo,
de posições ideológicas ou de classe social.
Os Jogos Paralímpicos podem ser uma mola propulsora, pronta a nos
impelir muito além do campo esportivo.
Tive o privilégio (e agradeço a meus compadres Marcelo e Ana pelos
convites) de assistir à cerimônia de encerramento da paralimpíada
no Maracanã. Como espetáculo, sem dúvida, ficou muito aquém da
abertura, no entanto o que mais me chamou a atenção e me emocionou
foi algo que se passou bem longe do palco principal. Pude observar,
de perto, a alegria daqueles atletas por mais uma etapa de vida
vencida. Num determinado momento, integrantes da delegação
brasileira fizeram um "trenzinho" e saíram dançando pelo
gramado. Aos poucos, vencendo a timidez, paratletas de outros países
foram se juntando ao grupo que, logo, tinha centenas de componentes.
Dançavam, sorriam e interagiam com a arquibancada (na verdade não
há mais arquibancada no Maracanã... é o hábito). A emoção
transbordava em nós. E ali não havia qualquer resquício de
"coitadismo" deles ou de pena nossa.


Era uma celebração da vida, como na verdade todos Jogos Olímpicos
ou Paralímpicos devem ser.
PS: O programa acima citado vai ao ar nessa quinta-feira, dia 22 de
setembro, às 20h30, na TV Brasil.
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